Caderno #1
Ensaios…
Na busca do passado para entender o que sou, tentando construir, com alguns fragmentos o indivíduo que se apagou em mim, esbarrei com a memória, com a reminiscência. Nesse acidente, assumi como tema central do meu trabalho a memória sendo parte considerável deste desenvolvimento. Eu não considero a memória real como foco principal e sim a falta dela. Daqueles momentos que criaram-se uma lacuna em nossa mente e que não sabemos o que realmente aconteceu. A memória está em constante construção e consequentemente em eterno esquecimento. Parodiando Marc Augé, é preciso saber esquecer para saborear o gosto do presente, do instante e da espera. É preciso esquecer o passado recente para recobrar o passado remoto. Por esta frase questiono a real necessidade deste esquecimento recente. No mundo moderno, cheio de informação e muita rapidez, me intriga o quanto nosso cérebro dá importância ao recente ou ao passado.
Freud mostra a relação do presente com a infância. Percebi que no início (infância) e no final (velhice) existirá o esquecimento passado no presente. Mas este esquecimento está presente onde? Se existe o registro, a regressão, o ser humano sendo nostálgico, por que precisamos esquecer? Não é a partir deles que criamos o que somos?
Segundo Marc Augé, este esquecimento devolve o presente e se conjuga em todos os tempos: no futuro para viver o início; no presente, para viver o instante e no passado, para viver retorno.
Muitas vezes, os registros fotográficos constroem nossa consciência, vivenciadas mas não lembradas. Parte dessa história se perde em nosso registro cerebral. Confiamos no que nos é contado, inconscientemente. Entretanto a pintura me instiga. Como meio de registro anteriormente a fotografia, a memória era perpetuada por uma pintura que era o registro daquele momento. Esta perpetuação não era feita com um clique, mas com dias, semanas, meses para se construir uma memória que muita vezes se perderia.
Procurando os registros do meu esquecimento, reconstruo minha memória pelos espaços. As cores, a fisicalidade (corporeidade), a matéria me ajuda a lembrar do esquecido. Mas que muitas vezes, se torna início. Camada sobre camada construo a pintura com o esquecido.
Van Gogh compunha suas cores e intensidade no próprio fazer, na matéria. Cézanne dava maior tangibilidade à existência física dos objetos em sua pintura. Matisse decompunha a cor e construía em sua composição uma organização estrutural, pictórico. Eles me fazem pensar e conduzir a retórica do meu trabalho.
Minha intensão em resgatar e construir a memória esquecida no inconsciente através da pintura é baseada na frase de Paul Cézanne, a pintura é uma construção autônoma. A consciência é que enxerga, não mais o olho que enxerga. Pelas cores, pela composição estrutural, pela organização espacial e composicional na superfície da tela. Construo a memória esquecida pela pintura.

